quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Cartas a quem deseja "seguir" a poesia. Edna Domenica Merola

Nas cartas ficcionais, a seguir, emissores e remetentes (Sonhadora, Semeadora, Responsável pelas Inscrições, Professora, Aluna Beatriz, Futura Aluna) dialogam sobre oficinas literárias e a 'prática' da criatividade como combate ao isolamento existencial para maiores de 50 anos. Explica-se a escolha das anfitriãs das Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I. 2016.2: a Poesia e a Dramaturgia. 





Porto Maduro, 01 de setembro de 2016.
Caros alunos,

Tendo por objetivos: constituir o grupo e reconhecer o acróstico como forma poética que explora os recursos gráficos visuais, proponho que cada um faça um acróstico com seu primeiro nome. Para quem não se lembra de como se faz, envio um que foi feito pela Edna (MEROLA).

ACRÓSTICO

Aprenda
Com a visão:
Rever não é
Ócio.
Socializar
Traz parceiros...
Inventar
Com dedicação é
O mister da poesia!

Atenciosamente, a Professora.


Porto Informativo, 12 de julho de 2016.
Cara Responsável pelas inscrições para as Oficinas Literárias,

Meu sonho é escrever pelo menos um poema nesta minha vida que tem sido muito boa... Mas que pode melhorar ainda mais.
Creio que poetas têm um dom especial. Mas pergunto-lhe, mesmo assim: é possível para alguém que nunca escreveu “versinhos” (nem na escola primária) aprender a escrevê-los, num semestre, depois de idosa?
Aguardo sua resposta para decidir se irei ou não me inscrever na Oficina de Criação Literária.
Atenciosamente, a Sonhadora.


Porto Informativo, 13 de julho de 2015.
Olá, Sonhadora,

Passei sua pergunta para a professora e ela me disse que a aprendizagem varia de pessoa para pessoa, mas que eu deveria encorajá-la a participar, desde que você tivesse hábito de ler com frequência. Constata-se que quanto maior a escolaridade mais rápida é a adaptação às tais oficinas. O curso é para quem cursou no mínimo o Ensino Médio. Não será necessário comprovar se o grau escolar foi obtido ou não. Como você sonha em aprender, precisamos mostrar-lhe qual será o grau de desafio, para que você não se desiluda.
Atenciosamente, a Responsável.


Porto Informativo, 14 de julho de 2016.
Cara Professora,

É verdade que os poetas vivem num mundo à parte?
Fernando Pessoa escreveu na primeira estrofe do poema Autopsicografia: 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Se os poetas fingem a dor, será que fingem também o amor que declaram às suas musas? 
Beatriz.


Porto Informativo, 15 de julho de 2016.
Cara aluna Beatriz,

“O poeta é um fingidor” já que não relata fatos autobiográficos, mas representa a dor humana e a transcreve em forma de texto poético. O leitor, por sua vez acreditará que o poeta simplesmente imaginou “A dor que deveras sente”.
Fernando Pessoa explicou que os poetas se despersonalizam como numa representação teatral:
O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro ‒ eis tudo. (PESSOA, 1935).
Beatriz: musa de Dante
Os nomes das musas não têm a ver com a vida íntima dos poetas. Por exemplo, as musas dos poetas do arcadismo (século XVIII) foram copiadas dos poetas da Antiguidade Clássica (século VIII A.C. ao séc. V D.C.). 
Há uma tradição de copiar nomes de musas, até hoje. Consegue lembrar quantas personagens Beatriz houve nas novelas televisivas? Sabia que Beatriz era o nome da musa de Dante Alighieri? (1265-1321).
Huizinga. 1872-1945. 
Por ser um dos gêneros literários, a poesia é uma atividade arquetípica, cuja tônica é o jogo. 
Huizinga afirmou:
Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde início, inteiramente marcadas pelo jogo. (HUIZINGA, 2000, p 7).

Portanto, a palavra é abstração; é representação daquilo que é imaginado e expresso pela linguagem metafórica (poética) ou pelo jogo de/com 'palavras'. Esse jogo peculiar está implícito na poesia e no teatro
O poeta cria o "eu lírico", inventa a musa, idealiza o amor, imagina um estado poético e o expressa num poema para o deleite da leitora.
Atenciosamente, a Professora

Porto Informativo, 18 de julho de 2016.
Professora das Oficinas de Criação Literária,

Poderia antecipar algo sobre as Oficinas do próximo semestre?
Abraço, da Futura Aluna.


Porto Informativo, 19 de julho de 2016.
Cara Futura Aluna,

Anteciparei algo sobre a metodologia adotada e seus fundamentos; os objetivos e proposta de curso para o semestre vindouro. 
Considerando que a palavra é abstração → metáfora → jogo (teatro) → poesia, a metodologia adotada nas Oficinas Literárias do NETI é lúdica. 
O uso do jogo didático aqui referido é uma interpretação do psicodrama sob um enfoque histórico-cultural. 
J. L. Moreno (1899- 1974)

Moreno identificou três fases no desenvolvimento de um papel: a primeira que é a tomada de um papel; a segunda que é a fase em que se joga o papel e a terceira que ocorre quando se cria sobre o papel. Quanto mais desenvolvido for o papel, maior será a espontaneidade que ele apresenta, ou seja, maior a capacidade de dar respostas novas a situações novas ou respostas adequadas a situações velhas. 
O fator espontaneidade é passível de desenvolvimento na interação com os colegas de aprendizagem, dadas as circunstâncias estabelecidas pelos contextos, instrumentos e etapas do jogo dramático que configuram a atividade como vivência de teor ético e estético. O jogo ou desempenho de papéis depende naturalmente de interações potenciais de um grupo. 
O empobrecimento das relações em pessoas idosas pode estar associado ao isolamento que ocorre de diferentes formas
Irvin D. Yalom
I. Yalon. Washington, 1931

"O isolamento interpessoal refere-se ao abismo entre o sujeito e os outros. É vivenciado como solidão e pode ser melhorado por uma capacidade maior de criar e manter a intimidade com terceiros.” (YALOM, 2009, p. 37‒38).
Mais grave do que a solidão é o isolamento existencial: “refere-se a um abismo intransponível não apenas entre o eu e qualquer outro ser, mas também entre o eu e o mundo.” (YALOM, 2009, p. 38). 
Uma das evidências do isolamento existencial seria a baixa frequência de comportamentos criativos. Portanto, tratar do isolamento significa cuidar da criatividade.
Moreno (1978) considera que o ato criador está no processo da criação artística ou científica e não em seu produto que passa a ser conserva-cultural. Com o desenvolvimento da tecnologia, os cidadãos comuns substituíram "a onipresença no espaço pelo poder no espaço", e a onipresença temporal pelo poder no tempo, decorrente de "tudo aquilo que pertence à cultura e cuja repetição é desprovida de espontaneidade". No entanto, "a conserva-cultural só é de ajuda quando o indivíduo vive num mundo relativamente estável". O fortalecimento das possibilidades pessoais conta com o exercício da "espontaneidade".
Elisabeth Sene-Costa
E. Sene-Costa. Psicodramatista bras.
As respostas existenciais espontâneas facultam em relação aos papéis, segundo categorias apontadas por Sene Costa (1998): "tomar, aceitar, assumir ou adotar, desempenhar, jogar ou representar, criar ou reformular, desenvolver, recuperar, escolher, conquistar ou ganhar, ampliar".
Nas Oficinas de Criação Literária 2016.2, o papel de "eu lírico" será estimulado com o intuito de criar o papel de poeta. Já o teatro será a forma de desempenhar, representar e ampliar esse papel. 
Atenciosamente, a Professora.


REFERÊNCIAS

MEROLA, Edna Domenica. Pedagogia do Psicodrama: a ação do grupo no desenvolvimento de papéis da pessoa idosa. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa. Orientadora: Maria Celina da Silva Crema. UFSC, CCS, N.E.T.I., 2015, 46 f.
____________ Cartas em Posfácio. In Diálogos da Maturidade. Postmix, 2016.

MORENO, J.L. Psicodrama. 2 ed, São Paulo: Cultrix, 1978.

SENE COSTA, E. Gerontodrama: a velhice em cena. (Estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e a terceira idade.). São Paulo: Ágora. 1998.

YALOM, I. D. Vou Chamar a Polícia: e outras histórias de terapia e literatura. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

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