sábado, 2 de maio de 2015

Apolo e Dionísio nas artes. Edna Domenica Merola

MITOLÓGICAS: DIONISIO
Baco de Caravaggio
(Dionísio)
Apolo













De 1982 a 1984 fui aluna de um curso que se destinava a psicólogas e médicas. O curso foi ministrado pelo Instituto Brasileiro de Psicodrama e tinha por meta formar psicodramatistas. Foi a partir do IBP que conheci o Psicodrama: o teatro da vida.
Comecei a pesquisar os processos criadores de soluções para antigos ou novos impasses e questionamentos. Comecei a perceber quão profícuo é o uso da fantasia na busca da qualidade de vida. E como resultado dessa descoberta, incorporei técnicas do psicodrama no meu cotidiano de professora de Português.
No jogo psicodramático prevalece a fantasia, pois suas regras são as exclusivas do jogo, não havendo sanções da realidade. “Psicodrama é [...] pesquisa em ação [...] aí incluindo role playing...” (MORENO e ENNEIS, 1984, p. 84).
Em 30 de abril de 2015, numa oficina de criação literária, dirigi uma dramatização espontânea que procurou instigar a reflexão sobre equilíbrio e criatividade. Tal atividade didática foi estruturada num contexto psicodramático que é o momento do como se ou da fantasia. O role playing realizado consistiu do jogo de papéis socialmente estruturados e preestabelecidos: o de debatedor (professor ou conferencista) e seus complementares (público).
Alguns representaram os papéis de professores participantes de uma mesa redonda que explanaram sobre as imbricações do equilíbrio psicológico e da criatividade com a cidadania. Os demais participantes representaram o papel de plateia e encaminharam perguntas aos ‘debatedores’ sobre o equilíbrio e a loucura.
Qual a importância desse debate para o ensino-aprendizagem da Literatura?
A arte é ‘associada’ às manifestações dos deuses gregos Apolo e Dionísio (cujo correspondente, no Império Romano, é Baco).
Apolo é o deus da razão e do equilíbrio, presente nas formas esculturais presentes dos templos e conservadas por séculos pelas classes sociais dominantes. A concepção do belo puro ou apolíneo é bem conhecida. Todos que compartilham da cultura ocidental entendem sobre a expressão “fulano é um Apolo” que tal pessoa é bonita de forma absoluta. No entanto, sabe-se que isso é relativo aos padrões do belo apregoados na antiguidade clássica e perpetuados por meio de mecanismos culturais de caráter hegemônico.  
A arte apolínea teve seu período de ouro no Classicismo e remete às máximas: o objeto da arte e o produto artístico devem ser perfeitos; os modelos servem para ser imitados; a arte imita a realidade. Conceitos da arte apolínea foram explorados politicamente para justificar correntes higienistas e outras que se apoiam na inclusão do 'belo' e exclusão do 'feio' (determinados via eurocentrismo).
Dionísio ou Baco está ligado ao frenesi carnavalesco inerente às manifestações populares. Na concepção dionisíaca, toda a mancha de pecado se apaga com o ritual que resulta em suspensão temporária da ordem rotineira. O resultado é a festa com carnavalização que propicia a catarse coletiva.
A perspectiva dionisíaca é de certa forma relacionada à ‘alucinação’ e à ‘mania’. A alucinação é alteração de sentidos e a mania a exacerbação da parte motora.
A arte dionisíaca é aparentemente transgressora da ordem social estabelecida, mas remete ao que é ritualizado. A expressão tanto da alucinação quanto da mania, que se dá no ritual, é uma expressão coletiva e, portanto, compartilhada culturalmente. Representa, assim, um mecanismo de subversão da ordem, mas com retorno à sua continuidade.

A arte é, portanto, imitação e deformação da realidade. A vida cidadã depende não só da preservação da ordem (por meio das informações culturais), como também das transformações (via deformações e transgressões) necessárias para manter a dignidade da vida humana. 


Referências:

CEIA, Carlos. E- Dicionário de Termos Literários

MORENO, J. L. e ENNEIS, J. M. Hipnodrama e Psicodrama. Trad. bras. São Paulo: Summus, 1984.


Link
Imagem do deus mitológico grego: Apolo.
http://random-bits-of-pie.blogspot.com.br/2012/03/apollo-is-one-of-most-important-greek.html

Imagem do deus Baco. Cópia da pintura por Caravaggio.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Lições sobre o Cuidado. Edna Domenica Merola.

Tulipas
Numa interessante oficina para educadores, uma das estratégias utilizadas apresentava um texto e uma imagem diferentes para cada um dos grupos. A tarefa era tecer as possíveis associações entre o texto verbal e o 'imagético'. E, em seguida, cada grupo deveria formular uma questão.
Um dos grupos recebeu uma imagem que alguns de seus membros identificaram como rosas e os demais como tulipas. E um poema de autor desconhecido.
Questionaram o que as flores teriam em comum com a amizade (tema do texto).
Em casa, consultei imagens de tulipas que poderiam ser consideradas semelhantes a rosas. As tulipas em botão, de fato se assemelham àquelas.
No entanto, o cultivo de ambas no hemisfério sul é bem diverso. Rosas se adaptam mais ao nosso clima e seu cultivo acaba sendo considerado algo simples. No nosso território a tulipa é exótica e rara (valores positivos), mas mal adaptada (valor negativo).
Ao pensar na construção de metáforas comparando flores e a amizade, nos deparamos com a questão tanto de seu cultivo como do prazer que nos proporcionam.
Flores raras ou corriqueiras enfeitam, embelezam, perfumam... São bem-vindas, assim como a amizade.
Mas cada laço afetivo que une duas partes demanda algo que vai além da intenção, da afinidade 'gratuita' e da aparência (que se nos apresenta como familiar, honesta, bondosa, agradável, acolhedora, aconchegante...).
Cada vínculo entre duas pessoas demanda a utilização de energia na construção e na manutenção desse 'estar' que chamamos de amizade... E que nos leva a reconhecer o outro como amigo.
A princípio é possível ser uma pessoa 'amistosa', ainda que sem amigos.
Assim como pessoas não 'amistosas' podem ter contatos com várias pessoas que as chamam de amigas.
Há sempre algum contato que demanda da outra parte o cuidado intenso como o que pede uma tulipa, e, no entanto, só retribui proporcionando uma única florada. Ser professora às vezes pede esse grau de percepção do processo de desabrochar delicado que precisa de temperatura diversa daquela que o grupo de colegas é capaz de oferecer em dado momento.
O processo de aprendizagem não implica em cuidados voltados para alterar a natureza dos seres. Implica antes em explicitar o potencial existente nessa natureza de forma que caminhos de adaptações sejam buscados pelo aprendiz.
A aprendizagem altera antigas percepções sobre o mundo e sobre si mesmo...
Eis porque como aluna ou como professora, sempre estou envolvida com novas aprendizagens.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Comentário sobre a poesia de Irmã Andréa. Edna Domenica Merola.

Falar da poesia de Irmã Andréa é tocar nos rastros que seguem em busca de Deus. Mas não dos rastros de peregrinos aflitos ou sofridos.  O andar poético dela é ameno e cabível, posto que humano. E é assim  que nos convida a pensar no que ela menciona. Seu estilo exclui o proselitismo, mas abarca a simplicidade que cativa.
Ao procurarmos a poetisa, encontramos a filósofa. Ao procurarmos a religiosa encontramos a pessoa que expõe sua alegria e segurança em sua jornada terrestre. Um bem-te-vi, flores, uma palmeira ancestral e o movimento humano foram cantados nos versos sob os títulos: O Sorriso das Flores; A Margarida Flor; Palmeira Fiel; O Bem-te-vi e sua Obra; O Tai chi da Natureza.
Mas meu poema favorito é o que irmã Andréa deu o título de O Meu Espelho. Desde o título remonta aos grandes temas dos grandes autores. No Fausto de Goëthe o espelho que lemos nos mostra 'duas almas' em conflito que habitam um só corpo. Já no espelho de Irmã Andréa lemos integração. 
Mostro primeiro a minha leitura sobre o poema cujo texto se encontra no final desta 'postagem'.
O poema O Meu Espelho tem oito estrofes. A primeira estrofe anuncia o tema: ver com o coração.
As demais estrofes descrevem sete desdobramentos do ser que quer se abrir àquela experiência.
O primeiro desdobramento é o do ser que se compadece. O segundo é o do ser que habita um corpo.
O terceiro é o do ser que se reconhece como criatura de Deus.
O quarto é o do ser que pratica a autenticidade.
O quinto é o do ser que doa amor materno.
O sexto é o do ser que pratica a reflexão para se avaliar.  O sétimo é o do ser que pratica o autoconhecimento.

Há uma crendice de que espelhos não devem ser compartilhados... 
Como não compartilho dessa crendice, usei o espelho de Irmã Andréa para compartilhar fraternalmente essa metáfora do olhar cristão que li nos versos dela que transcrevo a seguir:


POEMA O MEU ESPELHO. 
                             Irmã Andréa (Divina Providência)

Olhei no meu espelho
E chamou-me a atenção:
‒ Que não devo ver só com os olhos
Mas também com o coração.

Senhor, que meus olhos só
Transmitam bondade e compaixão
E trazem para mim
A Paz do coração

Os traços do meu rosto
São como você quer
Você me fez assim,
Você me quis mulher.

De novo olhei meu rosto,
Olhei com muito amor
E descobri que o Artista
És tu, meu Bom Senhor!
  
O espelho é verdadeiro
Olhando nele me diz
Se estou chateada e triste
Ou alegre e feliz!

Há muito tempo me falaram
Até marquei no meu caderno
Que cada rosto de mulher
Era rosto de Deus materno.

Meu espelho, por favor,
Tu me avisas: sim ou não...
Quando ando no caminho
Nesta vida contra mão.

Eu não vendo meu espelho
Nem por nada deste mundo
Por que ele me ajuda
A encontrar-me mais a fundo!


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Diário de Classe 2014.2. Oficinas Edna Domenica Merola e Alberto Gonçalves.



O recorte realizado por este registro abrange os seguintes itens: objetivos, atividades, temas desenvolvidos, avaliação processual, fontes usadas no planejamento das oficinas e um adendo que abrange as produções textuais apresentadas no sarau de encerramento do semestre.

Objetivos das Oficinas (inclui “fala dos alunos”)
1- Interação do grupo, mediante apresentações, onde os trabalhos criativos são valorizados. "O trabalho de todo o grupo é que merece destaque. Uma constelação tem muito mais brilho que uma estrela solitária."
2- Valorizar a cultura do idoso e a "sua capacidade intelectual, produtiva", e sua "criatividade".  “Demonstrar o quanto aprendemos e evoluímos com o passar do tempo. Evidenciar a capacidade da sociedade conviver e aprender com o outro, especialmente com os idosos”.
3- Construir outra forma de cidadania mais ativa e mais participativa.  Romper com a visão preconceituosa que recai sobre a população idosa e contribuir para deixar claro seu papel na sociedade.
4- Participar "desenvolvendo habilidades, projetos, sonhos ou lazeres que haviam sido postergados".

Atividades
Os alunos realizaram dois saraus e leitura de poemas em dois encontros em locais públicos do tipo "café cultural", além das atividades em sala de aula. Os professores ministraram mini curso durante a XIII SEPEX, além do preparo dos saraus e das aulas.

Temas desenvolvidos
21/8 - Apresentação por meio das escolhas musicais. Jogo do 'Nascimento Auditivo'.
28/8 - Samba em Florianópolis.  Performance: colagem com as letras das canções mencionadas nos inventários de interesses.
04/9 - Refrões Samba - paródia, réplica, citação. Música e cores (Vídeo com músicos que deram depoimentos sobre as relações entre as cores e os sons). A análise das canções e o emprego das metáforas.
11/9 - Cores - metáforas recorrentes em canções.
18/9 - Primavera - na mitologia e nas letras de canções. Jogo de imaginação dirigida.
25/9 – Lupicínio Rodrigues
02/10 – Bossa Nova
09/10 – Festivais da Canção
16/10 – Preparo do Sarau da SEPEX.
22/10 – Mini Curso na SEPEX
30/10 – Sarau na SEPEX
06/11 – Jogo de Imaginação Dirigida: Aqui e Agora & Memórias de versos interpretados por Elis Regina.
13/11 – Elis Regina
20/11 – Psicodrama Temático (axiodrama): Soberba, Humildade e
Naturalidade. 1- personificação de um conceito abstrato; 2- inversão de papeis; 3- solilóquio (pensar alto sobre a cena); 4- consciência.
27/11 – Avaliação das habilidades desenvolvidas. Preparo de Sarau.
04/12 – Sarau na Casa Divina Providência.

A avaliação processual das habilidades desenvolvidas foi feita pelo próprio participante e sofreu o viés de um recorte temporal, a saber: a duração do curso (3 meses. 2 horas semanais.).

Habilidades pontuadas de 0 a 10 pelo participante ‘A’:
Habilidades
Antes do curso
Após o curso
Memória Musical
2
4
Memória Auditiva
3
7
Memória Pessoal
5
7
Memória 'Social'
5
7
Dirigir a imaginação (foco na criação)
5
10
Verbalização
5
8
Criação Escrita
5
10
Gosto pela leitura sobre música popular
2
8
Canto
5
5
Dramatização
5
7
Interação Grupal
3
8
Gosto por ouvir música
9
10

Média das pontuações dadas pelos participantes para as habilidades 
relacionadas à memória e à música:

Habilidades
Antes do curso
Após o curso
Variações
Memória Musical
3,67
6,50
2,83
Memória Auditiva
4,33
6,83
2,50
Memória Pessoal
6,17
7,50
1,33
Memória Social
6,67
7,83
1,16
Canto
4,83
6,00
1,17


Fontes:

BUZAN, Tony. Mapas Mentais e sua Elaboração. São Paulo: Cultrix, 2005.

LODGE, David. A Arte da Ficção. Trad. Bras. Porto Alegre: L& PM Pocket, 2011.

MEROLA, Edna Domenica. De que são feitas as Histórias. Florianópolis: Postmix, 2014.

MORENO, J.L. Psicodrama. 2 ed, São Paulo: Cultrix, 1978.

___________ Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Trad. bras. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

SCHIER, J. ; ALVAREZ, Ângela Maria; VAHL, E.; GONÇALVES, L. H. T. – 30 Anos NETI: o percurso de um modelo de educação permanente em Gerontologia. Extensio (Florianópolis), v. 10, p. 02-02, 2013.

SENE COSTA, E. Gerontodrama: a velhice em cena. (Estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e a terceira idade.). São Paulo: Ágora. 1998.

domingo, 12 de outubro de 2014

Jogo de Escrita Poética: Interlocutores e Ações representados nos Festivais de MPB. Edna Domenica Merola.

JOGO POÉTICO

Leia atentamente o quadro abaixo e ouça as músicas a que ele refere, consultando endereços eletrônicos fáceis de localizar pela Internet.


Festivais de MPB: Seus Interlocutores e Suas Ações


MPB: Festivais
O interlocutor
As ‘ações’
Arrastão 1965. Música de Edu Lobo e Letra de Vinícius de M.
"meu irmão" "João";"ninguém", seres fictícios (Iemanjá, Nosso Sr do Bonfim
Pescar, casar, ver (tanto peixe assim)
A Banda. Chico Buarque.1966.
“Meu amor”, “minha gente sofrida”,
“o homem sério , o faroleiro, a moça triste, a namorada,” “meninada”, “rosa triste”, “velho fraco’, “moça feia”
Chamar, ver passar , ouvir, dar passagem, assanhou, cantando, despedir-se, pensou, dançou, debruçou (na janela), vivia calada sorriu, ver passar, cantando ,pensando, tocava, se espalhou, insistiu, surgiu.
Ponteio. Edu Lobo. 1967.
Ninguém "que soubesse que eu sou violeiro"; alguém desconhecido
Tocar viola /fazer ponteio;
Jogaram a viola no mundo/fui lá no fundo buscar.
Roda Viva. Chico Buarque . 1967
"a gente" "mulata" "senhor"
a fogueira queimou o samba, a viola, a roseira
Carolina. 1967.
"Carolina" "eu'; "um marinheiro" "o pescador" "eu'
(uma rosa) morreu, (uma festa) acabou, (nosso barco) partiu
Memórias de M. Saré. Edu Lobo e Guarnieri. 1967.
"Marta Saré", "Dorinha", "Moço Severino"
Ações substantivadas: A casa lá na fazenda /o rosário obrigatório /o jantar... à mesma hora /as histórias de Dorinha /a lanterna azul partida /a dor, a palmatória, a raiva, a cantiga mais sentida, um galope de cavalo.
Bem vinda. Chico Buarque. 1967.
Extensões do eu: "minha mesa" "meu pinho" meu samba"; "amada" "bem vinda"
Comunico /chamando /Florindo/chorando/pedindo
estou (sozinho) /Vem iluminar /Vem entrando/ está custando /estar perto (da alegria)/pode entrar /Eu não cantei em vão.
Bom Tempo.  Chico B.1968.
"eu" "a nova vida" (no sentido de ser coletiva)
viver a vida/Que eu pedi a Deus
Sabiá. Chico Buarque. 1968.
Extensões do eu: palmeira, sabiá, flor, planos, enganos, solidão.
Voltar; ouvir cantar,
 deitar à sombra, colher a flor, anunciar o dia

 Em seguida, cumpra os seguintes passos do Jogo:


1- Copie em papéis separados cada uma das células da coluna interlocutores e reserve (coloque num envelope, caixinha,...)
2- Copie em papéis separados cada um dos quadrinhos da coluna ações e reserve
3-  Sorteie uma palavra da coluna 1 e outra da coluna 2 e faça 1 verso 
As 2 palavras sorteadas deverão ser encaixadas em um mesmo verso.
Faça isso 4 vezes (4 versos), leia e pense em como dar continuidade...
Se não gostar? Recomece o processo.

Bom jogo poético!