quarta-feira, 11 de maio de 2016

Cartas: espaços de diálogo e protagonismo. Edna Domenica Merola.


O presente texto relata interferências didáticas ‒  elaboradas pela professora Edna Domenica Merola ‒ e aplicadas à produção de texto epistolar nas Oficinas de Criação Literária para a Terceira Idade. Para focar no aproveitamento das memórias pessoais para a criação de personagem prototípico, a docente criou estratégias como o Desenho do Relógio de Memórias e o Desenho do Átomo Social do protagonista. Conforme Buzan nos ensina: o desenho pode concretizar abstrações e ativar a memória, sendo "um mapa" útil para o trabalho acadêmico.

DESENHO DO RELÓGIO DE MEMÓRIAS

Na oficina de 16/3/2017, a professora Edna Domenica Merola solicitou que os participantes situassem, temporalmente, os seguintes fatos ocorridos em suas vidas: nascimento, entrada na escola; primeiro emprego; primeiro voto para presidente do Brasil; nascimento do primeiro filho; mudanças importantes como a chegada a Florianópolis ou o divórcio; a perda de entes queridos, a percepção do próprio amadurecimento e das mudanças tecnológicas. Os alunos receberam por tarefa alocar aqueles itens num relógio no qual 01 hora representava o nascimento e 12 horas a data da aula. Consequentemente, os demais itens deveriam ser escalonados em ordem crescente, conforme vividos, de fato. Em seguida, tiveram por tarefa escrever uma carta de apresentação dirigida à professora com a narração de seu Relógio de Memórias. Em sequência, a professora elaborou síntese dos dados constantes do Relógio de Memórias e das cartas de apresentação. Resultaram três personagens prototípicos que foram os emissores ou destinatários das cartas redigidas durante o primeiro semestre letivo de 2017.

O que é o Átomo Social?
O Átomo Social retrata o conjunto de papéis que uma pessoa desempenha num dado momento de sua existência, incluindo os complementares desses papéis. O conceito de átomo social é de Jacob Lévi Moreno: o criador do Psicodrama.
"O termo Psicodrama origina-se do grego, sendo drama correspondente a ‘ação’, e psique (psykh) significa: alma, pessoa, mente." (MORENO, 1978). A personalidade é um construto aberto e é pelo desempenho de papéis que se constrói o “Eu” e se revela a plasticidade da existência humana.
Moreno classifica os papéis em: psicossomáticos, psicodramáticos e sociais.
Os papéis psicossomáticos estão ligados ao desenvolvimento do psiquismo humano. São exemplos de papéis sociais: mãe, professora, amiga, esposa.
O papel psicodramático está ligado ao faz de conta. Seres tais como um Amigo Imaginário, Papai Noel e Menino Jesus são exemplos de complementares de papéis psicodramáticos.

Na oficina de 30/3/2017, a professora Edna ofereceu atividades personalizadas para cada participante. Coube à aluna  W. escrever uma carta na qual a emissora é Lucíola que conta como foi sua escola primária de 1946 a 1949. A carta é datada de 30/3/1950 e endereçada a uma amiga. Segue desenho do Átomo Social que inclui papéis sociais desempenhados pela protagonista e seus complementares:


REFERÊNCIAS

BUZAN, Tony. Mapas Mentais e sua Elaboração. São Paulo: Cultrix, 2005.

LODGE, David. A Arte da Ficção. Trad. Bras. Porto Alegre: L& PM Pocket, 2011.

MEROLA, Edna Domenica. Pedagogia do Psicodrama: a ação do grupo no desenvolvimento de papéis da pessoa idosa. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa. Orientadora: Maria Celina da Silva Crema. UFSC, CCS, N.E.T.I., 2015, 46 f.
____________ De que são feitas as Histórias. Florianópolis: Postmix, 2014.

MORENO, J. L. Psicodrama. 2 ed, São Paulo: Cultrix. 1978.

___________ Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Trad. bras. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Memória e Música: aula do Prof Alberto Gonçalves no N.E.T.I. Por Edna Domenica Merola.


Foto do perfil
Sobre outros trabalhos do professor Alberto Gonçalves nas Oficinas de Criação Literária do NETI, vide o link:
http://netiativo.blogspot.com.br/2014/08/musica-poesia-edna-domenica-merola.html

Aula de 5/5/2016 
‒ ministrada pelo professor Alberto Gonçalves 
‒ Tema: Memória & Música Cantada. 

Ilustrou-se com
Samba de uma nota só: composição de Antonio Carlos JOBIM e Newton MENDONÇA. E cuja gravação mais famosa, no Brasil, foi com João Gilberto, em 1960. 
Alegria, Alegria: de Caetano VELOSO. 
O Bêbado e a Equilibrista: de João BOSCO e Aldir BLANC.

Décadas referidas: sessenta e setenta do século XX.

Ao ministrar aula no projeto de extensão universitária da UFSC aberto para pessoas maiores de 50 anos, deparamo-nos com a questão da memória. Esse item se torna mais importante ainda no contexto das Oficinas de Escrita Criativa. A clientela ao inscrever-se em tal curso almeja aprimorar instrumentos de expressão em geral, mas em alguns casos há o desejo de publicar uma autobiografia. No entanto, a docência da escrita criativa impinge-se a tarefa de ensinar a trazer o novo para o lugar do velho. Seriam docente e alunos dois veículos andando em direções opostas numa única via?
Valeu-nos em tal impasse as explicações dadas pela professora Jeanne Marie Gagnebin. Para ela, a memória é paradoxal posto que é ativa e passiva. A memória é uma instância ativa já que querer lembrar é algo ligado ao aprendizado. E como instância afetiva é passiva e só pode ser acessada por imagens (tipo de registro que antecede à aquisição da linguagem).  
Na aprendizagem, uma vez formado o hábito, o indivíduo não tem mais que se esforçar para lembrar; a memória passa a ser espontânea. O que garante a fidelidade das imagens mnêmicas? Platão explica pela "tábua de cera e a escrita". A cera dura quebra. Se o rastro é fraco não adianta a cera ser boa.
A memória é ligada ao presente. Dependendo do momento que lembramos, lembramos diferente. A memória reenvia ao passado, mas também ao presente daquele que lembra. A memória é lembrar-se de si mesmo: é identidade. A construção da história e da identidade é ligada à narração. A identidade se altera conforme as diferentes narrações que faz sobre si mesma. Mesmo quando a pessoa que toma a palavra é a mesma, mas a enunciação é outra (depois de 20 ou 30 anos).
A memória afetiva é peculiar do nascimento até os dois anos. Essa 'memória' (dependente dos sentidos) é forte porque não pode ser transformada em lembranças. Sentimentos primeiros (não verbalizados) são lembrados pelo medo, pelo cheiro, pelo gosto e retidos em imagens.
Sem o convívio social a criança não aprende a se expressar, já que a defesa vem da aprendizagem na célula familiar e não do instinto.

A memória coletiva vem de um polo narrador ou de vários narradores e não de um enunciador individual ou de um narrador. 
Para Ricoeur, há dialética entre lembrar do presente e lembrar do passado. 
A obra de Platão  Diálogos   tem influência da oralidade. A escrita é relativizada. O mito inventado por Platão é supostamente egípcio. A escrita é droga (veneno e remédio) para o esquecimento. O jovem acha que é veneno e o velho acha que é remédio. 
Autobiografia é uma narrativa auto idealizada. O narrador escolhe quais são as lembranças que vai recusar e quais vai lembrar. Rejeita-se determinados documentos ou não, conforme o desejo próprio. Isso complica a questão da verdade.

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro, em 25/01/1927, e faleceu em Nova Iorque, em 08/12/1994). Tom Jobim, foi compositor, maestro, pianista, cantor, arranjador e violonista brasileiro. Tom Jobim compôs o Samba de uma nota só que foi composto em 1959 e lançado em 1962. 

Samba de uma Nota Só. Tom Jobim.



Eis aqui este sambinha feito numa nota só.
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só.
Esta outra é consequência do que acabo de dizer.
Como eu sou a consequência inevitável de você.

Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada,
Ou quase nada.
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada,
Não deu em nada.

E voltei pra minha nota como eu volto pra você.
Vou contar com uma nota como eu gosto de você.
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó.
Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só.






Caetano Emanuel Viana Teles Veloso nasceu em Santo Amaro (BA),em 7/8/1942). Em 1967, participou do Festival Record com a música Alegria, Alegria. https://www.youtube.com/watch?v=eC4lwEvG3AE


Alegria, Alegria. Caetano Veloso.



Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento
Eu vou

Eu tomo uma Coca-Cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou

Por que não, por que não? (3X)


O Bêbado e a Equilibrista é uma composição da dupla João Bosco e Aldir Blanc que ficou conhecida pela interpretação de Elis Regina.

Na memória coletiva brasileira, a música O Bêbado e a Equilibrista remete ao movimento pró “Diretas Já” e pela anistia política – do final da década de 70 do séc. XX.

O Bêbado e a Equilibrista


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...

A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel

E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil.
Meu Brasil!...

Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarices
No solo do Brasil...

Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista

Tem que continuar...





O jornalista e escritor brasileiro Henfil (Henrique de Souza Filho) nasceu em Ribeirão das Neves, em 5/2/1944 e faleceu no Rio de Janeiro, em 4/1/1988). O quadrinista e cartunista Henfil
criou o universo discursivo dos polêmicos personagens “Fradins”: construiu uma “crítica política e de costumes que colocou em xeque, por um lado, o cristianismo oficioso das elites políticas e religiosas e, por outro, os simulacros sociais. No caso em questão não se trata apenas da crítica à devoção, mas especificamente a devoção ao poder. Defendo a premissa de que por intermédio do grotesco e do fantástico, em conjunto com a ironia e a carnavalização, Henfil desmistificou as deidades políticas e religiosas, substituindo-as pela dúvida e colocando-as lado a lado com o ridículo. Deste modo, o humor henfiliano representou um esforço de resistência, ao mesmo tempo em que contribuiu para a luta política contra a ditadura militar.” (PIRES, 2006).




REFERÊNCIAS


BLANC, A. e BOSCO, J. O Bêbado e a Equilibrista. Disponível em
https://www.letras.mus.br/elis-regina/45679/


GAGNEBIN,  Jeanne Marie. Entrevista UNICAMP. Disponível em
https://youtu.be/b_v0-t2vnWY


GONÇALVES, Alberto. http://admusicaalberto.blogspot.com.br/


JOBIM, A. C. B. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=0vSgcN8aCZ4


MEROLA, E. D. O Bêbado e a Equilibrista. Disponível em 


PIRES, Maria da Conceição Francisca. Cultura e Política nos Quadrinhos de Henfil. História, São Paulo, v. 25, n. 2 p. 94-114, 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/his/v25n2/04.pdf


RICOEUR, P. A memória, a história, o esquecimento. Trad. bras. Alain François. Ed. UNICAMP, 2008. 


VELOSO, C. Alegria, alegria. Disponível em https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43867/


ADENDO I - Tarefa

Tendo por objetivo incentivar a ESCRITA POÉTICA pela via da audição de músicas cantadas, recomendamos por tarefa – seguir os passos:
1 - Ler a letra das músicas:
Samba de uma Nota Só. Tom Jobim e
https://www.youtube.com/watch?v=0vSgcN8aCZ4

Alegria, Alegria. Caetano Veloso.
https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/43867/

O Bêbado e a Equilibrista
https://www.letras.mus.br/elis-regina/45679/

2 - Escolher os versos mais significativos para você neste momento.
Lembrete: cada verso é uma linha do poema ou letra da música.

3- Reunir os versos escolhidos das 3 letras e organize-os dando-lhes um sentido.

4- Compartilhar sua colagem poética.


ADENDO II - Textos Ilustrativos

A partir da audição de músicas escolhidas por alunos da turma 2016.1., construímos dois textos ilustrativos, a saber: "Num pedacinho de terra que um dia enfim, descolorirá" e "Construção".

As escolhas de audição musical feitas por Adalgisa, Arlete, Carmem, Cleide, Mara Lúcia, Maria Antonia, Maria Juçara, Terezinha e Vânio foram tomadas por matéria prima da construção de um texto em versos (citados) de autoria da professora. Trata-se de diálogo entre a audição musical como composição antiga e alheia e a composição autoral como exercício cognitivo semelhante ao do quebra-cabeça. Para ler, acesse o link:
http://aquecendoaescrita.blogspot.com.br/2016/04/num-pedacinho-de-terra-que-um-dia-enfim.html


As escolhas de audição musical feitas por Maria Inês, Dulcirene, Edna Luiza, Marlene, Neide, Vera Lúcia, Janis, Dulce e Álvaro Frazão foram narradas no pequeno texto redigido pela professora Edna.
http://aquecendoaescrita.blogspot.com.br/2016/05/construcao-edna-domenica-merola.html


terça-feira, 26 de abril de 2016

"Diálogos da Maturidade". Edna Domenica Merola



Mariana Rotilli
Diálogos da Maturidade é o título de um livro que inclui cartas que foram escritas por um aluno e pela professora das Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I. 
A jovem Mariana Rotili  participou na criação da capa. 
E nos bastidores do livro, a UFSC como gestora do projeto de extensão universitária (aberto à comunidade) “NETI” ‒ Núcleo de Estudos da Terceira Idade  ‒ para alunos acima de 50 anos. 
Diálogos da Maturidade leva ainda palavras que parecem nos sorrir: marca registrada da Dra. Jordelina Schier (Nina - coordenadora do NETI). Transcrevo a seguir:


Sobre a produção do livro Diálogos da Maturidade
                No segundo semestre de 2015, ao ministrar oficinas para participantes maiores de 50 anos, deu-se prosseguimento a essa pesquisa/ação cujo registro redundou no livro Diálogos da Maturidade.
         As ações pedagógicas das oficinas têm por meta aprimorar e favorecer o desempenho cognitivo, sócio-afetivo e sócio-existencial de pessoas maduras e idosas.
          As estratégias das oficinas são elaboradas pela professora para que alunos treinem a habilidade de estabelecer vínculos, estreitem a relação com a própria interioridade, e conheçam dados culturais novos.
            Nessas oficinas, o ensino tem por fundamentação a Socionomia: fruto da pesquisa e criação de Jacob Lévi Moreno, para quem – corpo, psique e sociedade são partes intermediárias do eu total.        O eu é um constructo aberto ‒ em constante construção dialógica ‒ que abrange os papéis psicossomáticos, psicodramáticos e sociais.
            Nas oficinas, a ação pedagógica reporta-se ao jogo dos papéis sociais que envolvem a escrita ou ao treinamento dos papéis de escritor e de leitor.
            Refere-se ainda ao treino de papéis psicodramáticos ou ao desbloqueio da imaginação e das competências lúdicas.
       A complementação de papéis tem por foco o diálogo ou as interações entre o papel social de escritor e seus complementares, tendo por meta o desenvolvimento do vínculo entre papéis.
             Segundo Moreno (1974), o Átomo Social é o conjunto de papéis que uma pessoa desempenha num dado momento de sua existência, incluindo os complementares desses papéis.
            No segundo semestre letivo de 2015, as Oficinas de Criação Literária que realizei tiveram por meta o ensino do gênero epistolar no qual há premência da comunicação entre emissor e destinatário, o que aponta para a cumplicidade, imprimindo ao discurso certo teor de exposição e de proximidade.
            Na primeira unidade didática das Oficinas Literárias 2015.2 as cartas de apresentação ao grupo foram trocadas entre os papéis complementares de professora e de aluno (a).
            Na segunda unidade, a proposta foi a de escrever uma carta cujo emissor se localizasse no tempo passado (menino/menina) e que fosse endereçada ao próprio destinatário no tempo presente (senhor/senhora).
            Durante as oficinas, foram retomados para fins de produção escrita os átomos sociais de dois momentos de vida dos participantes: a infância e a atualidade.
            O desenho de um Átomo Social foi aplicado como técnica de aquecimento para a tarefa.
            No átomo social referente à infância, menções a seres tais como Papai Noel, Menino Jesus são exemplos de complementares de papéis psicodramáticos que são interligados às capacidades de imaginar e de acreditar.
            A unidade Cartas sobre Leituras incluiu trechos do livro Iracema (ALENCAR, 2008). A jandaia e o cão rafeiro alencarianos foram transformados em personagens de carta pelo aluno/escritor, agregando a fábula ao gênero epistolar.
            A referida unidade incluiu ainda textos de A Volta do Contador de Histórias. (MEROLA, 2011) que foram selecionados pelos alunos.
            Na unidade Cartas Psicodramáticas, trabalhou-se a conexão entre a leitura da realidade externa e da introjetada.
            A unidade sobre elementos da estrutura narrativa, criação de personagens e narrador ‒ remete ao título Cartas em Posfácio que tive de produzir a toque de caixa, durante o escaldante janeiro de 2016.   Acontece, cara amiga, que houve uma disputa entre dois possíveis coautores logo após a entrega dos originais à editora. Dessa contenda houve a retirada de uma coautora que produzira cinquenta páginas. Resolvi entrar com meus escritos para substituí-la. Sorte ou azar é que sempre tenho um verdadeiro estoque de materiais em estado de produção e os adaptei para tentar contemporizar a impeditiva da publicação e não amargar uma frustração. Coisa a que me nego, quando se trata de produzir criações.
            Em Diálogos da Maturidade ‒ cartas brasileiras ‒ publicadas sob o ISBN 978-85-62-598-50-0, dei expressão a diversos papéis que desempenho: o de professora, o de pesquisadora e o de artesã da escrita criativa.
            No papel de professora, continuou-se o projeto de pesquisa/ação sobre como incentivar a criatividade na escrita.
            Nos papéis de aluna e pesquisadora, teve-se o N.E.T.I. por lócus privilegiado para aplicar conhecimentos advindos do Curso de Especialização em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa, concluído no primeiro semestre de 2015.

            Como escritora, teve-se o privilégio do diálogo com o leitor sobre História de Amor, História de Sala de Espera, Conto em “Pas de Deux”, (MEROLA, 2011, p. 37-41, 57-59, 77-80).


Sumariando, Diálogos da Maturidade apresenta oito tipos de cartas:
1- apresentação à professora das Oficinas de Escrita Criativa; 
2- carta endereçada ao Túnel do Tempo; 
3-carta destinada a pessoa com quem se tem laços afetivos
4- carta a um ser psicodramático; 
5- carta para  a autora de um texto lido; 
6- carta a um personagem inventado;
7- carta a um objeto (como num apólogo); 
8- cartas em posfácio que complementam o prefácio e abrangem temas didático das referidas oficinas idealizadas pela Professora Edna Domenica Merola.


REFERÊNCIA

ALENCAR, José de. Iracema. Domínio Público.

MEROLA e SILVEIRA.  Diálogos da Maturidade. Florianópolis: Postmix, 2016.

MEROLA. A Volta do Contador de Histórias. Nova Letra, 2011.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Cartas de Oficinas de Escrita Criativa 2016.1. Edna Domenica Merola



Porto Interrogativo, 3 de julho de 2015.
Cara professora,

É verdade que quem conta um conto aumenta um ponto? 

A Sonhadora.




Porto Informativo, 03 de julho de 2015.          
Cara Sonhadora,

Segundo Huizinga (2000), as funções da linguagem são as de “comunicar, ensinar e comandar”.
Reconhecer tais funções implica em pensar que a escrita é representação da realidade pelo viés da ‘voz’ do narrador, quer seja ele um historiador contemporâneo ou um cronista pretérito diretamente subordinado a um poderoso rei.
A representação da realidade é cristalizada pela escrita. No entanto, a escrita literária não se obriga a estabelecer contrato de fidelidade com a realidade compactuada.
Narrar é inventar (iludir), já que a narrativa ficcional “privilegia apenas um ou dois pontos de vista a partir dos quais a história pode ser contada e concentra-se no modo como os acontecimentos afetam esses pontos de vista.” (LODGE, 2011, p 36).
Para ilustrar, o impacto que o ponto de vista tem sobre a narrativa, exemplifica-se pelo “efeito Rashomon”.
O filme Rashomon, dirigido por Akira Kurosawa, apresenta o Japão do século XI. Durante uma forte tempestade, um lenhador, um sacerdote e um camponês encontram abrigo nas ruínas de Rashomon. O sacerdote conta detalhes de um julgamento que testemunhou: trata-se do estupro de Masako e do assassinato do samurai Takehiro, marido dela. O julgamento do bandido Tajomaru é mostrado em flashback. Há quatro testemunhos. Cada relato mostra um ponto de vista único e conflitante com os demais. A tese implícita no filme é a de que cada narrador apresenta sua verdade sobre a mesma história. A expressão: “efeito Rashomon” quer dizer que nunca há uma mesma história; se houver diferentes narradores, o que há é uma suposição de uma mesma história.


Abraço, da Professora.


Porto Interrogativo, 3 de julho de 2015.
Cara professora,

Qual é a qualidade de escrita esperada em suas oficinas? É necessário pesquisar para escrever? E quanto aos aspectos formais? 

A Aluna.

Florianópolis, 09 de maio de 2016.
Cara aluna,

Se você é do tipo que detém bom conhecimento de determinado assunto, poderá colocá-lo em sua narrativa. Imagine que seu leitor é inteligente, curioso e receptivo, mas não um intelectual.
Se você tem medo de errar, liberte-se dele. Conscientize-se do que pode alcançar.
Se estiver insegura quanto à adequação do que aprendeu no passado, talvez queira algumas dicas: 
Escreva períodos curtos e parágrafos com poucos períodos.
Os períodos e parágrafos pequenos devem ser iniciados com o sujeito da oração para ajudar na clareza e concisão da narrativa.
Para aprender a criar personagens, deve escrever sobre a vida humana e não sobre a própria vida. 
Para uma iniciante, escrever autobiografia é como querer aprender a correr, antes de engatinhar. O narrador em primeira pessoa é um personagem e deve ser 'inventado'. Una lembranças a dados estatísticos. Ex.: Na sua infância, os brinquedos de vinil eram raros e os eletrônicos inexistentes? Como isso acontece no presente? Narre algum fato interessante sobre brincadeiras.
‒ Prepare-se para tolerar abstrações e enfrentar dificuldades durante o processo de aprendizagem das técnicas de narração. 
A narrativa em terceira pessoa também não garante facilidades para a escrita, quando o narrador permanece na posição narcisista.
A autora iniciante deve construir um narrador que não fique "olhando só para o próprio umbigo" o que poderia deixar sua narrativa pobre.
 Mostre claramente qual é a perspectiva da narrativa: incorpore as lições de Kurosawa em Rashomon, parta da pluralidade social. 
O narrador é o bandido, o Samurai, a representante do gênero feminino? É o empresário do agronegócio, o investidor da bolsa de valores, a dona de casa que vai ao supermercado? É o desempregado?
Por exemplo, se inventar um narrador para contar o impeachment do presidente Collor, ele terá de optar por uma perspectiva de quem teve seu dinheiro bloqueado ou pela perspectiva de quem conseguiu se safar do bloqueio e se deu bem. Nesta perspectiva, safou-se porque estava próximo ao governo e foi avisado de que haveria o "pacote econômico" ou porque não detinha recursos financeiros acumulados? A partir do narrador pode-se inventar seu antagonista.
Quem adotar Machado de Assis por modelo revelará isso no primeiro parágrafo, como ele o fez no conto Missa do Galo. Ex.: “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta." (ASSIS, M.).
A principal dica:
‒ Creia no seu potencial de leitura e de escrita.
                                                A Professora.


Florianópolis, 22 de abril de 2016.
Caras Alunas e Caros Alunos da Oficina de Escrita Criativa,

Desejo que estejam todos muito bem! Estamos, pouco a pouco, tecendo nossos laços de ensino-aprendizagem. Considero que os ingredientes principais desse trabalho artesanal são: a paz cordial, a tranquilidade nos contatos, a compreensão tolerante, a lucidez nas atitudes...
Ao encerrar a primeira unidade do plano de ensino da Oficina de Criação Literária parabenizo, com alegria, os que: assistiram às três aulas dadas; enviaram duas tarefas: a- narração de sua chegada a Florianópolis (quer por nascimento ou mudança); b- narração de um fato marcante, associando-o a uma música; publicaram no blog Netiativo e responderam a todas as perguntas do questionário dado.

Atenciosamente, a professora.


Florianópolis, 15 de maio de 2016.
Caros alunos da turma 2016.1,

Após as leituras referentes à Oficina de Criação Literária, desliguei o computador e fui ao teatro. Após assistir a peça O Avaro ‒ produção espanhola trazida para SC pelo Fita Floripa, tive um sono bem tranquilo e, ao acordar, havia um refrão novo cantando na minha cabeça que queria 'puxar' um texto.
Era a frase: "tomo da tua palavra e me deleito dela". Que inspiração "saia justa"! O correto seria dizer "tomo tua palavra e me deleito com ela". Mas refrão é algo que bate à nossa porta, que grita e chora até ser amado... Alguém queria tomar a palavra? Ouvi...

Blogblogblog!

Tomo da tua palavra: e centro o dia contigo
Tomo da tua palavra: curto circuito engraçado
Tomo da tua palavra: nesta rua daquela infância
Tomo da tua palavra saudosa filha de mãe Além
Tomo da tua palavra: bananas e cebolas
Tomo da tua palavra ponte caloura para a H. Luz
Tomo da tua palavra: desconfiança civil...
Tomo da tua palavra bêbada equilibrista
Tomo da tua palavra bule derramado
(Culpado? O cachorro de rabo preto da roça de Orleans)
Tomo da tua palavra: larva que passa como uma onda no mar
Tomo da tua palavra e Blogblogblog!
Tomo da tua palavra e me deleito dela.

Caros alunos da turma Oficina de Criação Literária  2016.1, estamos no momento do curso em que tomo da tua e da minha palavra e faço um leito com elas. Nesse rio, rio/rimos... Que lá vem mais alegria textual!


REFERÊNCIA

MEROLA. Cartas em Posfácio in Diálogos da Maturidade. Florianópolis: Postmix, 2016.

domingo, 17 de abril de 2016

Longe de Casa, mas perto de ***. Organização: Edna Domenica Merola.

O que sente ao olhar os bancos vazios de uma praça?

Florianópolis, 04 de abril de 2016.
Oi, Edna,

No semestre passado, recebemos seu contato, com a proposta de um contato entre a Oficina Literária do NETI e o projeto Longe de Casa. Naquela ocasião, não conseguimos viabilizar a parceria, mas, agora, com o início de mais uma edição do projeto, nós nos lembramos dessa possibilidade e gostaríamos de verificar se ainda há o interesse.
Como os encontros do Longe de Casa não estão baseados na questão literária, pensamos se seria possível mantermos este contato de uma forma pontual, dentro do projeto.
Uma possibilidade seria que, caso haja interesse por parte dos integrantes da Oficina Literária do NETI, eles, enquanto grupo, enviassem uma carta coletiva aos integrantes do Longe de Casa, contanto sobre suas experiências com o processo de ambientação a Florianópolis e com a construção de uma nova rede de apoio (a senhora havia nos contado que grande parte dos integrantes veio de fora de Florianópolis) e com a experiência das saudades do ponto de vista daquele que fica (já que nos contou também que parte dos integrantes têm filhos que saíram de casa para ingressar no Ensino Superior).
A carta seria entregue no encontro que falará sobre rede de apoio ou saudades, o grupo leria em conjunto e responderia a carta, também de forma coletiva, para entrega aos integrantes da Oficina Literária do NETI. 
Os encontros do "Longe de Casa: e Agora?" terão início no dia 12/04, próxima terça-feira e estão previstos 6 encontros: 12/4, 19/4, 26/4, 3/5, 10/5 e 17/5. Não sabemos ainda ao certo em qual data será tratado o tema das saudades, pois, na metodologia que utilizamos, são os participantes que escolhem a ordem dos temas no primeiro encontro. Sabemos que não será nos dias 12/04 e 17/05, porque são encontros de início e de encerramento do grupo.
Talvez esta proposta possa ser levada aos integrantes da Oficina Literária e, caso haja interesse, então, nos organizaremos para viabilizar a parceria neste semestre.
Pensamos que é importante lembrar que o propósito do projeto "Longe de Casa: e Agora?" é o de acolhimento dos estudantes ingressantes e de auxílio para a ambientação à universidade. Quando abordados a questão das saudades é como suporte para que o sentimento não seja paralisante ou um obstáculo para concretizar o projeto que se inicia com a vinda dos estudantes para cursar o Ensino Superior. É importante que a carta produzida pelo grupo possa oferecer aos estudantes outros olhares sobre as saudades, e não apenas tristeza, como muitas vezes acontece.
Quando você fala que irão compilar as cartas individuais, isso é feito com a participação do grupo? Imaginamos que sim, acreditando ser importante que o "produto final" seja de autoria coletiva. A nossa proposta também é a de que a resposta venha como uma produção coletiva.
Obrigada e abraços,
                           Lara e Elisa


Florianópolis, 04 de abril de 2016.
Oi, Lara e Elisa,

Na oficina de literatura e escrita criativa, a prioridade é a linguagem escrita (atividades: ler e escrever). A fala espontânea é trabalhada no “Jogo psicodramático”, de modo que atividades do tipo fórum, mesa redonda, assembleia sejam feitas “no lúdico”.  A construção coletiva de algo escrito no aqui-e-agora é uma atividade que deixaremos para o final do semestre. 
Costumo dar a tarefa de escrita para casa. Recebo via e-mail ou em mãos na semana posterior à aula dada (as aulas ocorrem às quintas-feiras). 
Postarei as cartas dos alunos sobre o assunto em pauta no nosso blog até o dia 18 de abril. 
Abraço, da Edna.

Florianópolis, 15 de abril de 2016.
Oi, pessoal do Projeto Longe de Casa (E Agora?),

A essa altura, podem estar se perguntando: "Quem são os alunos do NETI?"

Segundo Tiago Dias da Silva (Mestre em Administração pela UFSC), dentre os 876 alunos do NETI, 456 são provenientes de cidades de SC, 192 do RS, 82 de SP, 30 do RJ, 29 do PR, 18 de MG, 11 da BA. Os restantes dividem-se de forma inexpressiva ou nula dentre os demais estados da União.  No NETI, não  há alunos nascidos no DF, nem RO, SE e TO. 
Sobre os alunos da Oficina de Escrita Criativa pesquisamos o tempo de residência na cidade. O que pude saber até o momento: 78,26 % dos alunos têm de 50 a 65 anos. 13,04 % nasceram em Floripa. 86,96 % vieram de fora13,04 % são residentes de 2 a 3 anos. 28,57 % são residentes de 5 a 11 anos. 8,70 % residem de 28 a 30 anos. 43,48 % residem em Florianópolis de 37 a 48 anos. 64,71% assistiram ou ministraram aulas nos últimos 5 anos. 
As cartas que alguns alunos escreveram para vocês referem-se não só à adaptação a uma situação nova, mas também a alguns problemas urbanos, tais como o de transporte coletivo, a ligação entre a ilha e o continente, a balneabilidade de locais que foram praias naturais, a exemplos de Coqueiros e da Lagoa da Conceição.  Tudo isso, a meu ver, escrito com muita generosidade. Envio para sua leitura.
Com um abraço, da Edna.


Florianópolis, 7 de abril de 2016.
Olá, aluna (o) da Oficina de Escrita Criativa do NETI,

O setor Psicologia/ PRAE tem um projeto denominado "Longe de Casa (e agora?)". Reúne alunos da UFSC cujas famílias vivem em outras cidades. Fomos convidados para escrever para eles. 
Encaminho o convite com o mote "Longe de Casa, mas perto de *** que aponta para refletir sobre como cada um escolheu (e escolhe ainda) esta cidade para residir.
Os textos em formato de cartas serão enviados por e-mail e revisados para publicar no nosso blog.
O que acha de aceitar esse convite de escrita? Já aceitou? Então, após escrever, envie seu texto para mim.
Aguardo seu trabalho, 
                                     Edna.

  
Florianópolis, 12 de abril de 2016. 
Caros Calouros,

Em 1976, passei no vestibular da Universidade Federal de SC para o curso de Odontologia. Começava então uma nova etapa da minha vida, onde tive que me virar só, longe de casa, longe de Orleans. A primeira barreira foi vencer minha timidez. Depois vieram as questões a resolver, quanto seria o gasto, onde, e com quem morar? Como me deslocar para as aulas, meus pais poderiam me manter?
No dia que vim a Florianópolis para a matrícula no curso, conversando com outras pessoas sobre moradia, alguém me recomendou um lugar, uma pensão para moças na Avenida Mauro Ramos.
Assim tudo foi se encaminhando.
A pensão para moças foi meu lar longe de casa, onde dividia o quarto com outras três estudantes, e a casa com outros mais, pois mais quartos eram ocupados por estudantes de vários outros cursos.
A senhora, dona da pensão, pessoa acolhedora, séria e correta estava sempre pronta para ajudar suas meninas pensionistas, o que para mim foi um porto seguro, onde morei até o dia da minha formatura.
Foi muito boa minha convivência durante este período de estudante. As dificuldades foram superadas com esforço e restaram boas recordações de noites em claro estudando, de companheirismo, de conselhos, de desabafos, de choros, de festas e de amizades.
O final feliz: a profissão que amei.
                                         Terezinha Lolli Savi (60 anos).


Florianópolis, 12 de abril de 2016.
Caríssimos,

Minha experiência de adaptação em Florianópolis, não foi das melhores.
Saí de uma cidade pequena no sul do estado de Santa Catarina, para iniciar meus estudos na UFSC, em março de 1974, e fui morar numa “república de estudantes”. 
Era uma casa de três dormitórios e apenas um banheiro, onde morávamos em nove estudantes. Eu como calouro, de início sofri um pouco, isso porque tive que me sujeitar ao que sobrava, pois as melhores acomodações já estavam reservadas aos veteranos. Não bastasse isso, como de costume, era comum discriminar os calouros, eu também não fui poupado dessa abominável tradição.
Com o tempo as coisas foram melhorando, até que chegou o segundo semestre, e o estigma de calouro desapareceu. Mesmo assim muitas barreiras demoraram a ser vencidas: a distância e a saudade de casa, dos familiares, dos amigos, principalmente nos finais de semanas, era motivo de muita angústia.
Quantas e quantas vezes me passou pela cabeça: vou desistir dos estudos e vou fazer concurso para o Banco do Brasil.
Naqueles tempos trabalhar no Banco do Brasil era o sonho de muitos jovens.
Certa vez quando fui visitar meus familiares troquei ideias com meu pai a respeito dessa situação, e ele foi enfático.
‒ Continue a estudar, que eu vou te ajudar até a formatura.
Desse dia em diante dediquei-me a o máximo, e com a Graça de Deus consegui formar-me Engenheiro.
Hoje só tenho a agradecer a todos que de um modo ou outro me ajudaram nessa conquista.
                    Vânio (62 anos).


Florianópolis, 16 de abril de 2016.
Caros Calouros,

Vou contar um pouco da minha história.
Nasci na Serra Catarinense, onde cresci e estudei, saindo de lá com 17 anos.
Meu pai era funcionário público, mudou-se para Florianópolis e trouxe minha mãe e meus irmãos menores. Cheguei em dezembro, alguns meses depois, época de muito calor e sentia muito sono. Tive que me adaptar ao clima, aos costumes, aos nossos vizinhos, enfim, à maneira de viver aqui.
Morávamos em Coqueiros, aonde eu e meus irmãos íamos à praia diariamente. A areia era quente de queimar os pés, quando descalços. Às vezes víamos peixes, siris, camarão que os pescadores traziam. Também estrelas do mar e ouriço. Tudo era novidade, pois estávamos acostumados com as espécies de água doce.
Não sabia nadar, mas aos poucos fui entrando na água que era salgada e quente, muito gostosa. Aprendi com nossos amigos que primeiro era preciso aprender a boiar para depois nadar e assim podia ir mais longe no mar.
À noite conversávamos na praia, com os amigos, e meu irmão tocava violão, ali ficávamos até quase meia noite, hora estabelecida para voltar para casa, sem muito barulho.
Em março do ano seguinte iniciei os estudos no segundo ano do normal, hoje classificam como magistério. Não tinha muitas amigas, mas as amizades que fiz permanecem até hoje. Ia ao colégio de ônibus, que demorava em torno de quarenta e cinco minutos, a estrada era de chão e passava pela ponte Hercílio Luz, a única na época ligando o continente à ilha.
Eu questionava muito o fato de ter mudado de cidade, mas depois que comecei os estudos, fiquei mais tranquila, estudava, dava aulas particulares para crianças com dificuldades de aprendizagem.
Fui professora de adultos à noite, no Bairro de Coqueiros, e aprendi que disciplina e boa vontade andam juntas, não tinha medo, apesar de meus pais ficarem preocupados. Nessa época não havia tanta violência como atualmente.
Continuei os estudos, trabalhei e hoje sou aposentada.
                                                                    Cleide (69 anos).


Florianópolis, 19 de abril de 2016.
Caros calouros,

Como vim parar em Florianópolis? Nascida no interior do Estado do Paraná, onde vivi até meus 14 anos, vim para Santa Catarina, inicialmente, para São Francisco do Sul, onde morava meu irmão. Com 15 anos, voltei para o norte do Paraná, para estudar Teologia, num colégio interno, ficando dois anos em Arapongas, transferi-me para Londrina, onde dei prosseguimento aos estudos, concluindo, também o ensino médio e retornei para Joinville, onde cursei a faculdade de Pedagogia.
Depois de trabalhar vários anos nas cidades circunvizinhas, mudei-me para Florianópolis, em 2003. Atualmente, moro no norte da ilha, na praia de Canasvieiras, onde sou muito feliz e não penso mais em sair daqui.
                                             Vilma Ferreira Bueno (62 anos)


Florianópolis, 10 de abril de 2016.
Caros Calouros,

Florianópolis é a cidade natal de meu pai e após sua aposentadoria, retornou com sua família para sua tão amada terra.
Floripa já era íntima, porque era aqui que passávamos nossas férias. Belas praias, natureza exuberante, tão bem cantada no Rancho de Amor à Ilha.
Sou apaixonada por esta ilha e não me imagino longe daqui.
Muito levei filhos adolescentes para surfarem nas ondas da Joaquina, Praia Mole, Santinho...
E me encanto em visitar as praias que ainda trazem nas suas construções o registro do açoriano que o tempo não apagou.
Cacupé, Santo Antônio de Lisboa, Sambaqui, maravilhoso o pôr do sol, que mais parecem quadros pintados à mão, de tão linda que são as imagens.
Ribeirão da Ilha, com a sua vila açoriana, que é uma volta ao passado.
Floripa uma linda ilha.
Floripa um pedacinho do paraíso...
Longe de casa, mas perto do paraíso... 
Aqui estou em Floripa, residindo há 41 anos.
                                                         Dulcirene (57 anos).


Florianópolis, 15 de abril de 2016.
Caros Novos Florianopolitanos,

Longe de casa, perto da natureza exuberante da Ilha de Florianópolis!
Lugar mágico que me trouxe para perto de mim mesma.
Eu, paulista, paulistana, que não conseguia me imaginar viver em outro lugar, que são fosse a capital de São Paulo, onde tinha à disposição cinemas, teatros, compras, restaurantes, trabalho e áreas de lazer para poder escolher...
Creio que, ao visitar esta Ilha, fui enfeitiçada por ela, que me fez sonhar em viver aqui com minha família.
Ela é muito importante em minha história, porque foi através dela que resgatei o amor e confiança de minha filha, solidifiquei o amor e a cumplicidade com meu grande amor, e criei aqui, desde pequenino, o fruto dessa união.
Aqui também, fui ao fundo de mim mesma e estou conquistando o autoconhecimento, fundamental para a atual fase de minha existência.
Longe de casa e perto de mim mesma!
                                               Sandra Lúcia (56 anos).


Florianópolis 20 de abril de 2016.
Caros Calouros,

Gostaria de falar um pouco da minha experiência de vida como moradora de Florianópolis.
Nasci aqui nesta linda cidade há cinquenta anos atrás: no tempo em que ainda nem passava ônibus no bairro onde minha mãe estava quando chegou a hora de eu vir para este mundo. Meu avô levou minha mãe de carroça com cavalos até a maternidade Carmela Dutra.
Onde meus pais moravam nem carro de cavalos havia. Ainda nos dias de hoje só a pé e de bicicleta.
Meu pai era da Costa da Lagoa e minha mãe de Ratones onde estava com meus avós no momento em que resolvi nascer.
Hoje agradeço a Deus que o progresso ainda não chegou neste lindo lugar que ainda se encontra belo e com qualidade de vida junto à natureza. Para chegar lá, precisamos atravessar de barco ou fazer caminhadas pelas trilhas da Lagoa para a Costa ou de Ratones para a Costa da Lagoa.
O cenário ao longo do caminho é um espetáculo!
A trilha que vai de Ratones para a Costa da Lagoa é maravilhosa de tirar o fôlego (não digo de cansaço, mas de exuberante)! É linda mesmo... Podemos contemplar as praias da Barra da Lagoa, Galheta, Praia Mole, Joaquina e Lagoa da Conceição.
Aos quatro anos de idade, vim morar na Lagoa da Conceição com mais dois irmãos. Hoje somos nove irmãos (graças a Deus todos vivos!).
Naquele tempo: 1969, a Lagoa da Conceição não tinha muitas casas nem restaurantes. Dá para imaginar com era a Lagoa linda e transparente?! Pescávamos camarão com as mãos, de tão limpa que era a água.
Mas ainda temos muitas coisas maravilhosas aqui na ilha de Floripa. Temos a trilha de naufragados que é outro espetáculo! A chegada à praia recompensa a caminhada de 50 minutos.
Gosto de morar aqui no inverno, pois no verão está ficando um pouco tumultuado.
Um beijo e sucesso nas suas escolhas,
                                            Arlete ( 50 anos)


Florianópolis, 19 de abril de 2016.
Caros calouros,

Lembro, como se fosse hoje, o dia em que pela primeira vez passei pela ponte Hercílio Luz, deixava então para trás minha querida cidade de Angelina, onde ficaram meus pais, irmãos e amigos.
Hoje sei que era apenas uma criança de 14 anos que saía do interior e vinha conquistar a capital.
O fascínio pelo novo, a emoção da cidade grande e a saudade de minha família tornaram meu coração um misto de emoções que demorei a compreender.
O cheiro do mar era novidade o barulho e o amontoado de pessoas pelo centro me fascinava e assustava. Sem saber eu era mais uma criança do interior lutando para sobreviver na capital.
Trabalhei muito, do pouco que ganhara sempre reservava algum dinheiro para minha família. Sou a primogênita de uma família com 10 filhos e isto fez com que sentisse o peso da responsabilidade. Sou vitoriosa, em Florianópolis a capital construí uma vida linda, criei minhas filhas e meu neto.
Fiz desta terra o meu lar, todavia jamais me esqueci do verde das matas de Angelina. E até hoje vivo porque dentro de mim existe o equilíbrio do mato e do mar para acalentar minha alma.
VERA (53).


Cara Edna,

escrevemos para deixar retorno do pessoal do Longe de Casa: e agora? O blog NETIATIVO foi visto no último grupo do Longe de Casa. Os estudantes do grupo não desenvolveram escrita, mas desejam agradecer pelo compartilhamento das vivências e pelas palavras carinhosas direcionadas a eles.
Obrigado a todos os participantes da Oficina de Escrita Criativa do NETI!
Atenciosamente,
Elisa e Lara


Atenção em Psicologia
Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE)
Universidade Federal de Santa Catarina


Adendo: Rancho de Amor à Ilha. 
Cláudio Alvim Barbosa (Zininho)