quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Edna Domenica Merola editora poema do coletivo Léa, Taís, Rosilene, Edna; Eduardo, Gilberto, Tatalo

 


De que você gosta?

Edna Domenica Merola, Léa Palmira e Silva, Rosilene Souza,Taís Palhares, Antonio Carlos Tatalo Fernandes, Eduardo Martínez, Gilberto Pinto da Motta

 

  

         I- Gosto 

Gosto de um gostar 

Que impregna o ar 

Retórica artística confessa 

Rumo a pessoas, 

Afetivamente. 

 

Gosto de escutar 

histórias, músicas

Gosto de rever amigos 

Gosto de ouvir pessoas,

De sorrir e as vezes chorar, 

Estar entre amigos, 

Conversar, 

Ouvir música, 

Dançar... 

Gosto do barulho do mar. 

De ver o sol nascer e se deitar. 

Da ilusão do amanhã 

        a seme(ar)realiz-ações 

                             da melodia em moviment-ação 

        a distribu(ir) ondul-ações. 

Gosto do cheiro da chuva

     em uma t(ar)de de verão.

Do folhe(ar) da imagin-ação 

            Do despert(ar) da cri-ação 

                                 

Gosto de livros

De ler um bom livro,

De um jeito professoral

Que afaga a escrita 

Sem iludir você 

Definitivamente,

               Gosto.

De ser grata

 a Deus 

 e aos meus ancestrais. 

 

II- Sem satisfações a dar. 

 

Gosto de dormir com as galinhas e acordar com os galos. 

Gosto de receber a Lua e o Sol a cada segundo. 

 

Eu gosto do seu rosto ao vento exposto ao ar.

Seus olhos semicerrados lhe impingem um ar de seriedade.

Vejo na cena a respiração profunda e a tranquilidade. 

Venho por trás e a abraço.

Afago seu dorso com meus lábios 

Atinge as profundezas com leveza. 

Sem satisfações a dar. 

 

Gosto de saber que tudo é finito, pois me dá a noção maior de tudo que vivemos em paz. 

 

Hum... Gosto de praia, 

de ler em frente à praia, 

de tomar café, 

de ler tomando café. 

De ler sei que gosto, muito mais do que de tantas coisas. 

Gosto de ouvir a Dona Irene lendo. 

De vez em quando, me perco no doce timbre da sua voz. 

e procuro pelo seu ponto focal no ar. 

Lá está você respirando levemente. 

Gosto de ler, de praia, de café, da voz da minha mulher... 

Gosto também de quiabo, jaca e jiló. 

Ah, também gosto de melancia e sorvete de morango. 

E gosto de vocês. 

Antonio Carlos (Tatalo) Fernandes, professor titular convidado da COPPE/UFRJ de engenharia naval e oceânica. Foi membro do GTP (Grupo Teatral Politécnico da USP). No Rio, fez curso de dança de salão com Jaime Aroxa e de declamador de poesia com Elisa Lucinda. Participa da Tertúlia Poética e dos curso de Claudio Carvalho. Participa do livro publicado “Ninguém Escreve por Mim” organizado pelo último e editado por Cassiano Silveira.

 Edna Domenica 

Paulistana, desenvolveu pesquisa sobre Psicodrama e suas aplicações em oficinas de escrita criativa, parcialmente publicadas em Aquecendo a produção na sala de aula (Nativa, 2001). É autora de A volta do Contador de Histórias ( Nova Letra, 2011), No Ano do dragão ( Postmix, 2012), As Marias de San Gennaro (Insular, 2019), O Setênio (Tão Livros, 2024).

Eduardo Martínez

Carioca, bacharel em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. É autor de quatro livros (Despido de ilusões, Meu melhor amigo e eu, Raquel, e o recente Contos e crônicas por um autor muito velho; além de dezenas de coletâneas. Escreve diariamente para o site de notícias Notibras. 

Gilberto Motta: circense, jornalista, professor-mestre e aprendiz da vida. Rodou mundos e hoje escreve em paz em um chalé na Guarda do Embaú SC.

 Azaleia ou Soulea (Léa Palmira e Silva) é manezinha (nasceu na capital de SC). Em 2013, participou do concurso de Narrativas e Poesias do Sindprevs/SC e, em 2018, do Concurso Literário da Academia Criciumense de letras -ACL.

Fez o curso de Contadores de Histórias no Neti, em 2001, Oficina de Teatro da terceira idade do Neti -UFSC . E Oficina de Escrita Criativa com a Professora Edna no Neti/UFSC.

Foi integrante da ABCH de 2015 a 2023 . E da ACONTHIF desde 2001. Participa do Projeto anti-racista Retintas 1 e 2 com poemas. 

 Rosilene Souza 

Mineira, desenvolve pesquisa nas linguagens artísticas: colagem, escrita criativa, fotografia e deficiência visual. Investiga o excesso de imagens e escritas consumidas e produzidas na sociedade. Participa de exposições, feiras e mostras de Arte. Tem trabalhos artísticos e literários publicados em revistas, livros (coletâneas "Do corpo ao corpus, organização Edna Merola, 2022", "Ninguém escreve por mim, organização Claudio Carvalho, 2024"; catálogos e blogs. Contos e ilustrações publicados pelo Café Literário no Notibras (2025). 

Taís Palhares

Paulistana, participou do Ateliê de Escrita da Biblioteca do CIC - Floripa, SC - em 2019. É leitora de ficção que sabe o que quer. Participou do Café Literário com os títulos: Daqueles tempos distantes como "Baby, eu sei que é assim" e "Do interior para a senzala da cidade... e um bebê do patrão".       

sábado, 28 de dezembro de 2024

Escritora Edna Domenica em retrospectiva 2024

   

Eventos

1- Lançamento do livro O setênio , em 12/07/2024, na FECESC à

Av. Mauro Ramos, 1624. Centro Norte, Florianópolis, SC.

2- Sessão de autógrafos do livro O setênio,  em 20/07/2024, na livraria Desterrados (Rua Tiradentes. Centro. Florianópolis, SC).

3- Roda de Conversa sobre Produções do período 2017-2023 na livraria Latinas (Rua Padre Lourenço Rodrigues de Andrade, 650. Santo Antônio de Lisboa. Florianópolis, SC), em 23/11/2024.

Entrevistas no Café Literário Notibras 

 https://notibras.com

30/09/2024 - Amigo invisível se transforma no ato de escrever. Cecília Baumann entrevista Edna Domenica

21/11/2024 - Divulgação da Roda de Conversa com Edna Domenica Merola, por Cecília Baumann. 


Publicações no Café Literário do Jornal Notibras

18/09/2024 - Se Deus quiser ainda vamos bailar muito, Soledad - MEROLA, E. D. Pronto final, in O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, pp 31-32.

23/09/2024 - Tempo corre até a hora de ser feliz sem medo - MEROLA, E. D. Casaco vermelho, in O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, pp 33-34.

03/10/2024 - De Absinto Pioneiro, lá de Carlos Gomes, a Lara Pia. MEROLA, E.D. - Trechos do capítulo De Absinto Pioneiro a Lara Pia,  in O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, p 100-106.

13/10/2024 - Rei, capitão, soldado, ladrão (e sem coração) - MEROLA, E.D.  Rei, capitão, soldado, ladrão, in O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, p 74.

31/10/2024 - Madeixas de Doralina tinham o brilho da alma de uma criança. - Coletivo Antonio Gil Neto, Cassiano Silveira, Edna Domenica, Marlene Xavier Nobre.  Corpo a corpo, in Do Corpo ao Corpus. Palhoça: Rocha, 2024, pp 21-23.

07/11/2024 - De Chicos a Dorothy, crimes não compensam e sempre rendem punição. MEROLA, E.D. As Marias de San Gennaro, Florianópolis: Insular, 2019, pp 27-28.

09/11/2024 - O que São Genaro previu? É bom levar a coisa a sério. MEROLA, E.D. As Marias de San Gennaro, Florianópolis: Insular, 2019, pp31-33.

10/11/2024 - De milagre em milagre a gente vai agradecendo e levando a vida. Texto inédito.

13/11/2014 - Delatar ou não delatar, eis a questão, em meio a tanta corrupção. MEROLA, E.D. Delatar ou não delatar: eis a questão. In O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, pp 92-93. 

17/11/2014 - Quando a Professora X, algemada, sugere leitura da Constituição. MEROLA, E.D. - O crush da Professora X Maria. In O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, pp 67-73.

20/11/2024 - Do interior para a senzala da cidade... e um bebê do patrão.  - texto inédito do coletivo Brígida Poli, Edna Domenica e Taís Palhares.

26/11/2024 - Em busca de corpos narradores. MEROLA, E.D. - Em busca de corpos narradores. In Do Corpo ao Corpus. Palhoça: Rocha, 2024, pp 65-67.

03/12/2024 - Tresloucado amigo! Afinal, que procuras com elas? - texto inédito de Edna Domenica. 

06/12/2024 - Escola de politicagem continua viva embrulhada em negociata - MEROLA, E. D. Evento Pop, in O Setênio. Palhoça: Tãolivros, 2024, pp 63-64.

07/12/2024 - Daqueles tempos distantes com Baby, eu sei que é assim - texto inédito do coletivo Brígida Poli, Clara Amélia de Oliveira, Edna Domenica e Taís Palhares.

25/12/2024 - Que tal Pai, Mãe, Água, Terra e Fogo e revigorar o ar todo? - Segunda Coletânea de Natal. São Paulo: Projeto Apparere, Natal para 2020, p 58.


Agradecimentos à equipe do Café literário 

Eduardo Martínez, Cecília BaumannDaniel Marchi


Agradecimentos aos amigos

Lael Nobre pelo apoio logístico no lançamento de O Setênio na FECESC, em 12/07/2024.

Brígida Poli pela divulgação da Roda de Conversa no Portal Making Of, em 23/11/2024.

Rosilene Souza pelas leituras e trocas, e, em especial, pela ilustração do conto Casaco Vermelho.

sábado, 19 de setembro de 2020

My Happy Family - filme

 My Happy Family

Linguagem original: Georgiano.

Diretores: Nana Ekvtimishvili e Simon Groß.

Produtor: Jonas Katzenstein, Maximilian Leo.

Data de lançamento (streaming): 1 de dezembro de 2017.

Tempo de execução: 2 horas.

Escrito pela filósofa Nana Ekvtimishvili cuja filmografia inclui ainda: In Bloom (2013), Esperando pela mamãe (2011), Lost Mainland (2008), Fata Morgana (2007).

Trilha sonora “feita pelos próprios atores [mostra] pela música um pouco da cultura regional e o talento de voz e violão da nossa protagonista.” (1)

A interpretação do: “elenco [dá] um banho em muitos [atores] que já estão no mercado há tempos.”

(1)  https://www.minhavisaodocinema.com.br/2018/02/critica-my-happy-family-2017-de-nana.html


My Happy Family (2017) foi indicado  pela cinéfila Brígida de Poli (Portal Makingoff).


Ao assistir ao filme, notei que os cantos masculinos são corais e o canto feminino é "single" acompanhado ao violão pela própria vocal. O canto coral masculino lembrou-me algo ancestral como a dança masculina grega e até o coro da tragédia grega por reiterar preceitos sociais. O coro de vozes masculinas traz temas masculinos . Uma letra que me chamou a atenção fala da conquista da amada pelo agricultor que a abate literalmente em campo (desculpem-me a expressão!). Mas as melodias são românticas e a performance traz algo de solene. 

As falas masculinas são de proteção à mulher e até de respeito, porém normativas e prescritivas. Remontam ao "shame culture" (cultura da vergonha).

Considerando o conceito budista de felicidade em oposição à crença na roda da fortuna, elocubramos que, na cultura ocidental, o aniversário é o dia de comemorar a vida, é o dia de receber votos de felicidades. No entanto, a família julga os indivíduos o tempo todo ao invés de celebrá-los constantemente e, dessa maneira, celebrar a vida. O aniversário é o dia de olhar para o lado de cima da roda da vida, atribuindo a fatores externos os aspectos bons da vida, ao invés de encará-la como algo sem dualismo (céu e inferno). Considerando o conceito budista de felicidade, propomos uma reflexão  sobre como seria a educação para a felicidade. Na família, o julgamento excessivo é uma forma de violência ou é “educativo”?  O julgamento e o controle geram felicidade? Como funcionam: julgar, controlar e colocar limites?

O fato do enredo do filme partir do aniversário de 52 anos da protagonista do filme instigou-me a verificar os significados atribuídos pela  numerologia ao número referido. Quando esse número chega na vida da pessoa ajuda-a a enfrentar o medo da mudança para alcançar novos horizontes

https://www.proveitoso.com/significado-do-numero-52-numerologia-cinquenta-e-dois/

Essa tarefa de superação não é exclusivamente feminina. Dessa maneira, a nosso ver, o filme indaga indiretamente sobre  as tarefas de emancipação feminina na família patriarcal.  

 Comentários – Clara Amelia de Oliveira

Eu farei uma análise do filme, à luz das questões feministas e da posição assumida pela mulher (personagem principal do filme, a professora Manana).  Esta análise está de acordo com a compreensão do pensamento da filósofa francesa Elisabeth Badinter, que diz, a respeito do feminismo, em seu livro intitulado, no original, Fausse Route. Em portugês, tradução livre: Maneira errada, ou ainda, Caminho errado. 

Inicialmente colocarei três citações tiradas deste livro de Badinter:

1-A realidade é infinitamente mais complexa oferecendo a cada um dos dois sexos argumentos para se dizerem vítimas um do outro.

2-As relações homem-mulher podem diferir bastante, de acordo com as classes sociais e as gerações a que pertencem.

3-A razão primeira do feminismo, em todas as suas tendências, é de instaurar a igualdade dos sexos e não exatamente a de melhorar as relações entre homens e mulheres. Neste sentido Badinter encerra seu livro dizendo que, buscar a igualdade dos sexos, pode ser um falso caminho (Fausse Route).

Sobre minhas memórias sobre o filme, diria que, não sou muito ligada a detalhes e, deste filme, visto há pouco tempo, eu apenas lembrava que ele foi tocante e que tratava do caso de uma mulher que decidiu sair de casa pra morar sozinha.   Um filme simples, mas não simplista. Lembrava ainda do processo de adaptação desta mulher, em sua nova residência, e que, ao final, há sinais de um possível recomeço entre ela, e seu marido que ficou na outra casa vivendo com a família dela. O filme, ao meu ver, sintetiza uma história genérica, mais humana do que feminina propriamente dita.  A personagem principal, Manana, que cansa e sai de casa, poderia ser trocada por outro personagem qualquer tal com seu marido, um jovem filho, um dos seus velhos, enfim, é uma história das mazelas humanas dentro da organização social denominada família e da organização social atual.

O filme se desenrola mostrando gradualmente o processo de mudança de alguém que busca outra forma de se relacionar com a vida.

Sobre a citação 1 de Badinter, que vê múltiplas razões para mulheres e homens se considerarem vítimas, uns dos outros, a personagem Manana, justamente não se colocou numa posição feminina de vítima dos homens, ou mesmo do sistema geral. De forma calma, porém decidida, ela tomou a sua atitude de sair do ambiente família que a estava oprimindo.

A citação 2 de Badinter, se refere às relações homem-mulher,  contextualizando no ambiente social e histórico, característica, esta, que me agrada bastante no pensamento expresso por esta autora. Neste ponto citado, segundo a história narrada no filme, o foco está nos conflitos entre as relações familiares em geral. Estas relações são influenciadas sim, de acordo com a classe social. Neste filme temos uma grande família, de categoria social classe média baixa, vivendo sob o mesmo teto, onde o pouco espaço físico leva à invasão da privacidade de cada membro da família. 

E sobre a citação 3 de Badinter, que é muito contundente e genérica. Ela identifica uma diferença crucial entre a luta pela igualdade dos sexos, e a luta pela evolução das relações humanas de forma harmônica, sem dominação. Neste mesmo sentido, ao meu ver, nos dias de hoje, mais parece que a mulher está guerreando para conquistar igual, e idêntico, poder que foi predominantemente exercido pelos homens. Os homens, usualmente, se caracterizam por ser mais pavões, mais explícitos, mais imediatistas. Olhou, gostou, comeu. Homem sempre foi o mais forte, o mais músculos, o mais garanhão (o pegador). Até lembrei do imperador romano que disse: vim, vi, venci. E as mulheres de hoje, o que querem? Querem ser igualmente mais-mais. Mas altas (salto do sapato alto de 12 cm), cílios postiços de 1.5 cm, peito maior, silicone nele. Boca maior, enxerto nela, e por aí a fora. Atitude, de pegar, de transar no primeiro encontro, de forma pública, sem hipocrisia (o que parece, a primeira vista, se uma conquista importante). Tudo isto dentro de uma tendência destas recentes gerações. Mas temos que pontuar, como também o faz Badinter, que não se pode generalizar para enquadrar todas as mulheres neste padrão- tendência. Temos que aceitar também que nem todos os homens se comportam dentro deste padrão machista, que é, igualmente, uma tendência, mesmo que ainda predominante. O poder de dominação, historicamente exercido pelos homens, também contou com algumas personagens históricas femininas, de igual força e maldade.

A conclusão sobre este assunto, que parece ter fugido um pouco das memórias do filme, mas é tudo a ver, é de que há que se criar uma estratégia para lidar com os problemas humanos que poupe energia gerada na fragmentação das diferentes categorias. Ao se focar nos direitos humanos, e lutarmos pela justiça social, automaticamente será contemplada, não apenas a mulher, tradicionalmente dominada no mundo machista, mas também, uma parcela minoritária, mas real, de homens dominados separados por categorias específicas (índios, homossexuais, negros, crianças...). Isso tem criado batalhas sem fim e alguns paradoxos. Para mudar o foco, deverá ser envolvida uma mudança estrutural sistêmica profunda. É difícil? Sim. Mas se não tivermos esta perspectiva, a ser atingida, vai-se continuar gastando pólvora em focos específicos gerando caos. É mulher divergindo de mulher. Por exemplo, mulher branca esnobando mulher negra. Aliás, agora não é suficiente ser mulher branca, tem de ser mulher loira. Já notaram a quantidade de loiras arianas, falsas, por aí? É mulher divergindo de homem. É mulher indígena divergindo de mulher urbana típica. É gay divergindo de hetero, parecendo até, em algumas situações mais radicais, que ser hetero seria defeito. Contra tanta opressão, somente humanização, compreensão e flexibilidade diante das diferenças, vai dar jeito.

Para retornar ao tema do filme My Happy Family (ah, vocês pensaram que eu não ia voltar ao filme né?) Divaguei, mas voltei para dar o desfecho necessário para o filme em questão. Podemos concluir que este filme primou por um roteiro espetacular. Um filme épico onde a heroína mostra características inegavelmente humanas, mesmo que possamos ter visto pelo foco de uma mulher, até ali, submetida ao marido, aos filhos e aos seus genitores, Manana demonstrou ser uma mulher-gente. Uma mulher vencedora porque venceu sua própria luta interna. Um filme muito positivo pois não vitimizou a situação feminina e mostrou enfim uma pessoa-mulher vencedora.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Lendo Cinema XIV. Pecados Íntimos.

PECADOS ÍNTIMOS (Little Children) – direção: Todd Field – 2006

Cenário 1 -Tudo parece seguir o ritmo normal numa pacata cidade, até que um ex-presidiário (Jackie Earle Haley) acusado de exibicionismo e pedofilia, volta para casa. Isso causa um alvoroço entre as famílias locais. Ele acaba perseguido por um ex-policial.
Cenário 2- Brad (Patrick Wilson) precisa estudar para passar no exame da ordem dos advogados e fica em casa cuidando do filhinho, enquanto sua mulher, uma bem sucedida documentarista, trabalha para manter a casa. Ele gosta de passar horas vendo jovens skatistas praticando.
Cenário 3 – Sarah (Kate Winslet) é uma entediada dona de casa que cuida da filhinha, enquanto o marido trabalha. Ela costuma levar a menina no mesmo parque em que outras mães e Brad, apelidado por elas de o “rei do baile”, leva seu filho.

Curiosidades: A história é adaptada do livro “Litlle Children”, de Tom Perrota.

O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor atriz, Melhor ator coadjuvante e Melhor roteiro adaptado. Também foi indicado ao Globo de Ouro como Melhor drama, Melhor atriz e Melhor roteiro. O ator Jackie Earle Haley que não atuava há 13 anos recebeu vários prêmios de melhor atuação em outros festivais.

Compulsões Sociais. Por Edna Domenica Merola

Sexo explícito num filme que pretende dar mensagem sobre a correta maneira de se viver o amor familiar, mostrando diversas formas erradas de fazê-lo.  A trama pretende avaliar as relações familiares na sociedade americana para mostrar o que não deveria acontecer entre marido e mulher e entre mãe e filho. Tem um personagem exibicionista/pedófilo, um fanático (psicopata?) que quer colocar ordem na comunidade, um bonitão mal sucedido profissionalmente, a mulher bonita e bem sucedida que é mal amada, a mulher comum que abandonou seus estudos e foi ser dona de casa, mas é uma mãe rejeitadora, supostamente porque o marido prefere transar com personagem de site pornô do que amá-la. O corpo é mostrado como algo sujeito ao esporte violento e ao instinto sexual.
 O indivíduo da classe média é apresentado como alguém que se importa mais com o que os outros pensam dele do que com seus sentimentos, emoções, projetos de vida. A trama apresentada por cenas desastrosas são avaliadas por um narrador. (Isso lembra quando duas pessoas fazem coisas insólitas e chega um terceiro e opina de maneira absurda.). A "reflexão" do narrador quebra os efeitos das cenas anteriores e emblemáticas de violência ou sexo. Isso dá ares de série ao filme que acaba em tragédia.
O filme é realista, já que mostra uma comunidade americana vivendo compulsões: repetir erros nas relações familiares cheias de obrigações e cobranças, impor normas de condutas rígidas sobre comportamento sexual, sobre o sucesso profissional, sobre o poder aquisitivo, sobre o domínio de quem traz o sustento para o lar sobre os demais membros da família.
Mostra o individualismo, o egocentrismo e o materialismo como pilar da família e da identidade do sujeito.
As cenas de sexo são todas fora do casamento (e os envolvidos não acabam bem).
O gozo tranquilo e sem culpa passa longe de Pecados Íntimos (não se engane, pois, com essa tradução dada ao título).

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Lendo Cinema XIII. Crimes de Família.

CRIMES DE FAMÍLIA- DIR:SEBASTIÁN SCHIVEL- ARGENTINA-2020

Um homem acusado de agredir e estuprar a ex-mulher e a mãe dele lutando desesperadamente para provar sua inocência. Esse resumo pode remeter a muitos outros filmes, mas não se engane, há mais coisas pela frente. Na verdade, não se vê apenas um, mas dois julgamentos em paralelo na tela. A diferença entre os dois é a classe social dos réus. O primeiro é o de Daniel, filho de uma família classe média alta e o segundo, de Gladys, empregada dessa mesma família. Ao final, a história nos apresenta um enorme dilema.
A atriz que interpreta Alícia, a mãe que abre mão de tudo para defender o filho, é Cecília Roth, intérprete excepcional de “Tudo sobre minha mãe”, de Pedro Almodóvar.


“Crimes de família” (Crimenes de familia) tem algumas falhas de roteiro, mas se redime no desfecho do filme.

Abertura por Brígida de Poli


Ficção & Realidade. Marlene Xavier Nobre

O filme retrata o inferno que um viciado em drogas é capaz de fazer: perder a razão e a lucidez.
Naquele lar tudo se transformou em pesadelo para um casal abastado, a partir das prisões de seu filho único Daniel, viciado em drogas e que comete delitos, deixando toda a família desestruturada e doentia.
A trama mostra os fatos: a separação de Daniel da mulher e do filho pequeno, a gravidez da empregada, e a separação dos pais do jovem adulto viciado.
O que mais me chama a atenção é que Alicia abre mão do conforto e do seu casamento de anos pelo amor ao filho viciado.
Alicia, no final, não abandona a nora e nem os netos. Aproxima os meninos.
O que Alicia suportou por amor a seus netos faz da personagem um grande exemplo de mãe e avó.
Independente de classe social toda a família que vive esse drama em casa não tem um final feliz. A droga é uma lepra, quando adentra qualquer lar, tira todos os que ali residem da zona de conforto. A droga mata sonhos, destrói famílias, corrói vidas, separa amores. Quantas mães vivem isso na pele!



Comentários. Edna Domenica Merola

Gladys é a personagem que engravida de um estrupo, mas não sabe que o agressor pode ser acusado. É a vítima que se incrimina pela violência  sofrida. 
O número exato de Gladys que há no mundo não posso calcular com exatidão. Mas aquilatar não é muito complicado. Tome o total de mulheres do mundo ocidental e do oriente "moderno" ou ocidentalizado, subtraia o número de mulheres graduadas e pós graduadas e as líderes que encabeçam movimentos em prol de minorias.  Subtraia ainda (por benevolência ao sistema) as brancas com Ensino Médio ou modalidade correspondente em anos de estudo. Salve esse montante.  Depois some-o a 99,9% do número de mulheres do oriente médio.
Mas sei que sabe, cara leitora, que números não aplacam o choro abafado por quatro paredes. Sei que sabe que uma mãe vitimada só pode gerar vítimas herdeiras de um sofrimento que nem tiveram a chance de construir.

Crimes de família. Clara Pelaez Alvarez
Se no filme “O jantar” a hipocrisia era servida em pequenos pedaços num restaurante, neste a hipocrisia é servida em suculentos pedaços em processos jurídicos. Os dois filmes mostram a fedentina social. Levantam o tapete e eis: hipocrisia e crueldade.
Filme que causa náuseas desde o início. Não há redenção possível para os personagens, quer sejam as “pessoas de bem”, os advogados, juízes, policiais. Fiquei procurando no bolso algum tipo de perdão, mas nada encontrei.  São todos cúmplices do horror. A sala do tribunal, vazia, escura e fria com uma única culpada esperando os carrascos mostra bem o que criamos.
Gladys é resultado da nossa cumplicidade social. A inocente que se crê culpada e que carrega todos os sofrimentos do mundo, ao melhor estilo cristão, redimindo a sociedade. Os invisíveis que quando percebidos causam pavor social, pois jogam luz à hipocrisia de todos nós. Quantas Gladys existirão neste mundo? Haverá por aí alguma Dulcinéia que, montada num Rocinante, empunhe a lança de batalha contra os moinhos de pessoas? Talvez. Mas uma só não bastará.


Brígida de Poli é jornalista, cronista, cinéfila, colunista do Portal Makingof  http://portalmakingof.com.br/cine-e-series. Simpatizante e voluntária em prol dos direitos e do bem-estar de refugiados. Idealizadora e mediadora do Lendo Cinema, autora do livro As Mulheres de Minha Vida, Coleção Palavra de Mulher, Editora Insular https://insular.com.br/produto/as-mulheres-da-minha-vida/

Edna Domenica Merola é Mestra em Educação e Comunicação. Autora do livro As Marias de San Gennaro, Coleção Palavra de Mulher, Editora Insular https://insular.com.br/produto/as-marias-de-san-gennaro/.

Marlene Xavier Nobre é autora de  Lembranças e Esperanças de uma Mulher (Insular, 2020); A Meus Queridos Netos (Postmix, 2017).

Links para leitura de postagens anteriores de Lendo Cinema

Lendo cinema I – O Jantar (Oren Moverman, 2017)


Lendo cinema II – As Baleias de Agosto (Lindsey Anderson, 1987)


Lendo cinema III – Eu, Daniel Blake (Ken Loach, 2016)


Lendo cinema IV – O Cidadão Ilustre (Mariano Cohn, 2017)


Lendo cinema V – A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batatas (Mike Newell, 2017)

Lendo cinema VI – O Filme da Minha Vida (Selton Melo, 2017)


Lendo Cinema VII – Nossas Noites (Ritshe Batra, 2017)


Lendo Cinema VIII – O Filho da Noiva (Juan José Campanella, 2001)


Lendo Cinema IX – O Vazio do Domingo (Ramón Salazar, 2018)


Lendo Cinema X – Whisky (Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll, 2004)


Lendo Cinema X I –  Aquarius (Kléber Mendonça, 2016)

Lendo Cinema X I I–  A Prima Sofia (Rebecca Zlotowski, 2019)